"Somos quem podemos ser
Sonhos que podemos ter"

Hoje, olhando para trás, creio ser a todos inevitável o dia de olhar para si e para a construção pessoal, e se perguntar da coerência. Também creio visitar alguns o espanto e insatisfação no encontro da resposta. E sei do convite movediço deste labirinto, pois por ele fui tragada no início dos vinte e pouquinhos. Hoje, olho tudo que mudei. Hoje, me despeço dos passos, tamancos, lanhadas e tropeços da que fui sem ser. O que vou levar na mémoria desta será apenas a certeza da força que se fez emergir, mais nada. E agradeço pelo quanto me perdi, por aonde ao invés de encontrar coração tive pedra, pela sequência de perdas, enganos, decepções no vazio, por ter aprendido a ser sobrevivente para só assim encontrar a vida. Em breve me liberto de vez. Dessa vez inteira, por ser por mim, a favor de mim, e preservando a ética e integridade que me são da natureza.
E só escrevo isso hoje aqui, pela miúda grande esperança de que sirva a alguém. Pois é preciso dizer o quanto vale a pena o suor da alforria, a alegria genuína, o não temer se olhar de frente e arriscar modificar as linhas da vida. Seres humanos, como os passarinhos, não nasceram para gaiolas, como as borboletas precisam da metamorfose, como as águias da renovação.
Impresso por-em Cris Ebecken As 17:58:24
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Veio um outro, com ares outros, e sem que o intuito fosse aquele, sem que o ato lhe fosse esperado, voltou-lhe um espelho. Parecia trazer a punho e força o recorte espelhado a colocá-la de frente com seus reflexos. Esquivou-se. Via ali o que a explicava, o que na verdade explicava a reação dos outros, ou de outros outros, quando os lugares das ações eram inversos. Não gostou. Lembrou das vezes que lhe falaram ser uma mulher que assusta, e agora ela compreendia como uma excentricidade absurda. O outro em questão, talvez nem perceba, como ela antes não percebia. Estava ali por conquista, fazendo convite. Mas na forma em que o fazia a voltava um espelho. E nesse espelho refletia a ela que ela não mais queria. Então do susto conseguiu extrair que se agora era possível percerber-se, então ali, nela, aquela ela que não queria, não mais residiria.
Impresso por-em Cris Ebecken As 09:13:38
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Da série Poesia Gritante...

Nada a ser impresso...
além do silêncio das palavras tingidas,
do reticer em desalinho
das letras engarrafadas na estrada do a ser dito
de uma espera sem espera de mais nada
que louca vai desesperada extraindo palavras.
Há trabalho, desejo e sentidos.
Há ausência, querência, vazio.
Há um tempo perdido das métricas
e metrificado na ardência de viver em brasa.
Muito a ser impresso...
que ninguém me salve do mundo das palavras!
Deixem-me nele em bordados de telas impressionistas.
E façam-me renascer nos olhos que não me faziam extraída,
mas sim viva.
Impresso por-em Cris Ebecken As 20:00:09
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"O que se faz por amor sempre acontece além do bem e do mal."
Nietzsche
Impresso por-em Cris Ebecken As 15:01:58
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Internamente respirou fundo como quem ao mesmo tempo olha ao redor sabendo que existiriam outras saídas. Mas já estava ali, fervilhando vaporoso a ponto de bala o conto a ser contado. O diferente era o que o receberia... nem grupamento alegre faminto de ouvidos infantis, nem delineio de olhares já acostumados... somente um par de olhos, e olhos desconhecidos. O conto pressionando pedindo ser dito. Ela sempre com essa doença de história, poesia, conto, pinçados e articulados com pontos tão simples de uma conversa... aonde quem não tem da doença nem imagina ser uma coisa que de repente arrebata, nem muito menos que ali, em simplicidades entrecortadas de uma prosa proseada, cairia a pára-quedas um conto, uma história, ou uma poesia. O olhos do outro lado interrogativos pareciam pressentir qualquer fenômeno inesperado. Mas eram olhos que desconheciam da doença dela, e que ela não saberia como reagiriam a essa. Mas o conto já havia vindo a maria-fumaça de algum livro entre os tantos na cabeça enfileirados, e nada se preocupava com a vergonha ou tentativa de contenção dela. Tomou-lhe a alma, apropriou-se da boca, dançou em palavras. Por fim, restou o olhar dela, tímido receioso, para os tais olhos desconhecidos. Um respiro de alívio acolhido. Os olhos pareciam emocionados. E veio-lhe a cabeça uma fala que certa vez ouvira... quando você conta algo impregna suas palavras de ti, de seu amor pelas palavras, se do outro lado existir sensibilidade, não há como não ser tocado. E isso a fez lembrar do Pequeno Princípe, logo em seu início, aprendendo a averiguar a natureza do outro com o desenho de um chapéu, que não é chapéu... coisas de quem tem a doença...
Impresso por-em Cris Ebecken As 21:17:37
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Copa do Mundo, jogo do Brasil,
e o mundo brasileiro é escanteio da folia.
Haja fogos, cornetas, apitos!
Haja verde e amarelo, agito!
Perdoa, pátria minha,
que pra ter face em teu mundo,
ter na tua a identidade minha,
trabalho fundo e fundos pela minha alforria.
Quem mandou não nascer de um rei,
nem o tê-lo em riquezas na barriga.
Quem mandou não ser de Pasárgada,
e viver a dribles das pedras no caminho.
Hoje não te visto nem estou na folia...
Pois de teu umbigo nasci tão parida,
que gastei a noite da véspera em samba
gastando sandália, tempo, energia
e o que me resta hoje de folia
é me gastar pra me fazer em trabalho
- não me desapropie...
Da janela, é gol, é grito, é euforia.
Mas cá dentro eu, pátria minha,
tão sozinha, tão sem hino...
trocava toda a folia da rua, mais a não folia gasta no trabalho,
pela terra da poesia, por amor e dengo na cama.
Então te peço que peça a todos os teus Santos,
a folia! A folia das vitórias com meu bloco na rua
evoluindo as marchinhas enamoradas dos anjos.
Impresso por-em Cris Ebecken As 13:23:20
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Lá estava sentada tingindo palavras, ofício do pulso, projeto em nutrir-se um dia trabalho. Ia de tela em tela, deixando o inacabado, transformando tom sobre tom, fino pincel disperso de arremates. Mas toda vez que um vento soprava, esvoaçava papéis, sumiam as palavras. E ela deixava quietos os olhos do sentir inquieto. E alterava da tela de ofício para a tela de desabafo. Mas tinha jeito não... o vento soprava, esvoaçava, sumia as palavras. Restava os olhos sobre as pinceladas quando o pensamento trouxe Oswald de Andrade, e um suspiro de pé de página notificava: o amor a tinha a mastigadas. O que fazer agora? A dinâmica da invasão, do ter se permitido e ter ido ao atrito, fazia dela agora uma outra devorada. Teria tido tantos dentes quanto ele tivera? Mas o que fazer agora? Com vento soprando, esvoaçando, sumindo... seria preciso do amor completas doses... era a fome da tela nos olhos.
Impresso por-em Cris Ebecken As 12:16:42
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Vai o homem...
passa tempo de páginas andadas,
paginam-se os dias nos passos
e a conta-gotas vai a vida data-a-data.
E vai o homem,
no vir sem vir, no vai descompassado.
E fica o tempo
contando gota a gota
se chegará a tempo na data
de reconhecer o coração que o compassa
e libertar-se do ir alheio às páginas,
encontrando os passos para ser homem.
Impresso por-em Cris Ebecken As 21:10:55
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Com a mesma delicadeza que seus dedos paginaram o livro pela leitura da história, o fechava. A menininha dos olhos redondos sentada ao seu lado, que durante todo o tempo mantivera os ouvidos em rasantes pelas palavras, de súbito a envolvia agora com seus pequenos braços em um enorme abraço. Apertado, sorrido. Com os olhos pausados em alguma imagem que a história lhe convidara, brincou a menina:
- Quem conta um conto aumenta um ponto. A história parece um pássaro.
De certo... e essa fala acabara de alimentar suas asas. Histórias, livros, palavras... pássaros em abraço. Reino adormecido dos eternos convites... aonde basta que os abra.
Impresso por-em Cris Ebecken As 20:55:40
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"A unicidade do "eu" se esconde exatamente no que o ser humano tem de inimaginável. Só podemos imaginar o que é idêntico em todos os seus, o que lhes é comum. O "eu" individual é o que se distingue do geral, portanto o que não se deixa adivinhar nem calcular antecipadamente, o que precisa ser desvendado, descoberto, conquistado no outro."
"Parece que existe no cérebro uma zona específica, que poderíamos chamar memória poética e que registra o que nos encantou, o que nos comoveu, o que dá beleza à nossa vida."
"O amor começa por uma metáfora. Ou melhor: o amor começa no instante em que uma mulher se inscreve com uma palavra em nossa memória poética."
Fragmentos do livro A Insustentável Leveza do Ser,
de Milan Kundera
Impresso por-em Cris Ebecken As 01:12:30
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Deitou o dia, acordara a noite...
Para muitos o fim da tardinha
é perigo nos convites da melancolia,
ou sugestão do tempo como excasso.
Há burburinho pelas ruas e seus espaços,
há janelas acesas, faróis ligados,
há grito alegre de criança solta no sábado.
E tanto há mais...
Mas o que se passa no inteirim das casas?
O que se processa nos interiores das pessoas?
O que protege as roupagens?
Como se sucede o tempo em concepções de tempo outras?
Eu não sei.
Tu não sabes.
Impresso por-em Cris Ebecken As 17:13:53
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"Deve-se escrever da mesma maneira como as lavadeiras lá de Alagoas fazem seu ofício. Elas começam com uma primeira lavada, molham a roupa suja na beira da lagoa ou do riacho, torcem o pano, molham-no novamente, voltam a torcer. Colocam o anil, ensaboam e torcem uma, duas vezes. Depois enxáguam, dão mais uma molhada, agora jogando a água com a mão. Batem o pano na laje ou na pedra limpa, e dão mais uma torcida e mais outra, torcem até não pingar do pano uma só gota. Somente depois de feito tudo isso é que elas dependuram a roupa lavada na corda ou no varal, para secar. Pois quem se mete a escrever devia fazer a mesma coisa. A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso; a palavra foi feita para dizer."
Graciliano Ramos
Impresso por-em Cris Ebecken As 17:04:17
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