Gemada Salgada

Correm as pernas equilibristas entre vagões, ruas, carros. A sandália arrebenta... havia mesmo de já estar muito gasta. Correndo em algum intervalo, os pés ganham novos calçados, e as sandálias velhas ficam por ali aonde em outro tempo foram compradas, no lixo da loja. Já saem ainda mais equilibristas correndo. Ganham algum dinheiro entre tanto trabalho, sentado porém andado. Mas sendo o trabalho novo, e a localização nova, preciso é, para manter-se no correto, outros números, mais taxas, embora tudo soe na rotina como velho, indigesto e falho. Mais pernas e pernas com as costas em equilíbrio desequilibrado levando a vida embolsada. E a ironia do Rio de Janeiro mais uma vez faz festa.
A cidade só parece te querer a passeio. Te mandam de um lado para o outro, as informações só mudam de lugares mas permanecem truncadas. De um lado para o outro vão as pernas bambas, catando a ficha certa em amontoado na papelaria, colhendo xerox de documentos, buscando o lugar que finalmente teria por finalidade o regular. Mas entrando ali, entre ar condicionado com cheiro de mofo, fila em pé de espera, e funcionário mal humorado, tudo exalando velho e falho, seus papéis não estão certos embora conforme o informado, suas pernadas nada foram válidas... o atendimento é indigesto, a burocracia parece conspirar para que nada seja regularizado, e mais uma vez a má gestão da gema ulcera.
Depois a gente reclama da imagem malandra que exporta. Mas até a funcionalização das normas te amarfanham no entrelugar. O barulho do trilho no metrô irrita qualquer ouvido, como incomoda a condução das vidas por aqui. E a pergunta que fica é se isso lá é vida. A gema é pura gemada salgada em uma unidade coronariana intensiva, pública, claro.
Impresso por-em Cris Ebecken As 15:27:36
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Da série MA(R)ITMO

1
Corre a cidade amanhecida em primeira segunda outubral,
trançada em tempo e chuva, em vento de espera quente
de uma vida mais compassada sem tanto descompasso de gente
que corre, corre, corre, aguarda, quase morre... e reza
à Senhora dos nossos Mares
por uma cidade de luz e paz.
Impresso por-em Cris Ebecken As 13:18:55
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