Talvezes

Maria já foi boa de cachaça, hoje prefere a cerveja e deixa o vinho para as possibilidades degustadas do romantismo do talvez. Deu agora de repetir isso o tempo todo ao espelho, a palavra talvez. Anda burilando o novo, talvez acredite na libertação dos padrões, ou está prestes a render-se por completo ao confinamento dos estereótipos, talvez. Encontrou na geladeira, lá fundo, na prateleira debaixo, um vinho largado do seu antigo amor. Pegou sem delicadezas a garrafa, pois-se a bebê-la... sozinha ou acompanhada? Talvez.
Maria já não desfila nos olhos um traço sequer de ingenuidade, e assim, talvez, tenha resgatado a velha infância. Quem sabe se divaga sobre os filhos que gostaria de ter? Quem sabe se debruça sobre contruções profissionais? Talvez ela mesma não se atenha tanto às métricas dos passos. Tudo que exala e respira Maria é essa impressão de que a vida mata a todo tempo o passado, que o amanhã é o mistério do fruto não amadurecido no hoje, e esse hoje é a gama infinita das possibilidades do talvez.
Maria sabe bem da força dessa palavra incerta e atemporária. Talvez um sonho romântico do mais velho passado tenha lhe buscado a porta. Talvez um desejo até o então calado tenha lhe tomado a voz na forma da mais inovadora libertinagem. Talvez Maria tenha se reconhecido na imagem da mais louca, ou quem sabe assim tenha recobrado a sanidade. Talvez o agora a tome nos braços e lhe seja o homem que Maria merece ter, por pura esperança de quem persevera na mania de achar que um dia se chega a algo mais sólido que o talvez.
Maria olha tudo a volta, suas impressões são das mais fulgazes, como seu excesso de talvez. Tudo que sabe é que não se chama Maria, se inventou nesse nome para falar de si, uma única vez... talvez por representar a pluralidade singular do feminino que por esses dias anda sendo homenageado... talvez para brincar com a severidade social com que Maria e feminino são vulgarizados à raiz da falta de autenticidade na vida concreta aquém imagens. Talvez em seu íntimo humano haja uma voz ecoante desumana, gritando feito o poeta, " Acorda, Maria".
Pois bem, Maria está nitidamente acordada, e talvez se pareça dessa forma adormecida. Por distração ou propósito?, talvez. Bebe do vinho, da cachaça e da cerveja. Tem dos seus segredos, não conta a ninguém. Tem seus desejos e alinhava na sua trama do tempo. Maria irá amanhã à praia, encontrará o sol ou a lua, talvez.
Impresso por-em Cris Ebecken As 13:28:32
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