
Dona E. é vizinha de parede. Por várias vezes nossas fumaças de cigarro e incenso pela janela se encontram. Vizinhos confabulam disparidades a respeito. Uns a consideram louca, outros a mais sã batalhadora, alguns acreditam ser uma santa, outros entre sombrancelhas a acham algo puta. Tudo que sei é que escreve haicais pelas paredes, e sua casa por completo é de palavras. Certa vez espreitei o olhar por uma fresta de porta. Um quebra-cabeças deixou-me o espírito inquieto:
Doença ardida de viver a vida
por inteiro sem meios.
Saudade boa assassino,
saudade sem encontro vira ponto.
Impresso por-em Cris Ebecken As 09:39:22
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"Mas a nós, que não somos nem cavaleiros da fé nem super-homens, só resta, por assim dizer, trapacear com a língua, trapacear a língua. Essa trapaça salutar, essa esquiva, esse logro magnífico que permite ouvir a língua fora do poder, no esplendor de uma revolução permanente da linguagem, eu a chamo, quanto a mim: literatura."
"Porque ela encena a linguagem, em vez de, simplesmente, utilizá-la, a literatura engrena o saber no rolamento da reflexividade infinita: através da escritura, o saber reflete incessantemente sobre o saber, segundo um discurso que não é mais epistemológico mas dramático."
Roland Barthes, A Aula
Impresso por-em Cris Ebecken As 18:45:40
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Acontece no batimento de cada minuto
na virada dos segundos em pulso,
dia a dia, hora a hora.
Acontece no corre corre das ruas,
no centro do burburinho do tumulto
de um em um, de nós em nós.
Desata nó do fio adormecido,
que apesar de toda luta, dos pormenores,
dos suores das guerras silenciosas,
já não há como viver cerrando os olhos,
nem se alimentar como escravo fugitivo.
Há sol convocando lá fora
há porta expandindo pra aorta.
Troca.
Sai da toca dos sonhos só,
rompe a corrente das ilusões mortas,
a vida acontece agora.
Impresso por-em Cris Ebecken As 12:48:13
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-Então... seja o que Deus quiser, certo?
-Seja o que façamos!
-Como?!
-Deus tá sempre certo, certo?
-Certo.
-Então, que a gente aconteça com o que Deus der.
Impresso por-em Cris Ebecken As 21:32:59
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-Tem vezes que me esgoto da minha própria língua, entende?
-Ahã...
-Dá uma solidão tremenda!
-Dá vazio de vida, né?
-É...
-E aí a vontade de troca cresce mas a palavra entala...
-Ei! É isso o que eu sinto!
-Você não tá sozinha, acredita.
Impresso por-em Cris Ebecken As 00:00:23
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João só pensava no dinheiro, checava o saldo todos os dias, não ia ao teatro, nem ao cinema, nem ao bar encontrar os amigos, sua meta de vida era poupar gastos, mas uma vez por mês arriscava na mega sena. Joana é a filha única de um casal rico, sempre teve o que quis, ainda não descobriu o que fazer da vida, mas há trinta anos, todos os anos viaja à Disney. Antônio era executivo, pediu demissão, foi viver em uma comunidade Hare Khrisna. Maria era mulher de Antônio, pediu divórcio, desabafou no shopping com Joana, progamaram uma viagem para ver o Mickey. João em uma madrugada foi parar na coronária, não tinha ninguém que lhe fizesse visita. A enfermeira Ana comoveu-se com sua solidão, depois da alta o convidou para o samba. José é poeta, não conhece João, Joana, Antônio, Maria nem Ana, usa pouco o banco, rebola bem com os bolsos, e toda noite viaja sorrindo dedilhando as páginas do seu livro.
Impresso por-em Cris Ebecken As 23:41:29
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