Extraídas Impressões Impressas

 


Pertencentes Fragmentos Pertinentes

* Crítica e Clínica; Gilles Deleuze:

"Escrever é um caso de devir, sempre inacabado, sempre em via de fazer-se, e que extravasa qualquer matéria vivível ou vivida"

"Devir não é atingir uma forma (identificação, imitação, Mimese), mas encontrar a zona de vizinhança, de indiscernibilidade ou de indiferenciação."

"Não há linha reta, nem nas coisas nem na linguagem. A sintaxe é o conjunto dos desvios necessários criados a cada vez para revelar a vida nas coisas."

"Mas a literatura segue a via inversa, e só se instala descobrindo sob as aparentes pessoas a potência de um impessoal, que de modo algum é uma generalidade, mas uma singularidade no mais alto grau."

"a literatura só começa quando nasce em nós uma terceira pessoa que nos destitui do poder de dizer Eu"

 " A saúde como literatura, como escrita, consiste em inventar um povo que falta. Compete à função fabuladora inventar um povo. Não se escreve com as próprias lembranças, a menos que delas se faça a origem ou a destinação coletivas de um povo por vir ainda enterrado em suas traições e renegações."

* O Grau Zero da Escrita; Roland Barthes:

"Não há linguagem escrita sem alarde"

"O escritor nada retira dela, literalmente: a língua é antes para ele como uma linha cuja transgressão designará talvez uma sobrenatureza da linguagem: é a área de uma ação, a definição e a espera de um possível."

"Cada vez que o escritor traça um complexo de palavras; é a própria existência da literatura que está sendo questionada; o que a modernidade dá a ler na pluralidade de suas escritas é o impasse de sua própria História."

 "Nesse mesmo esforço de desvencilhamento da linguagem literária, eis uma outra solução: criar uma escrita branca, libertada de toda servidão a uma ordem marcada da linguagem."

"Guardadas as devidas proporções, a escrita no grau zero é basicamente uma escrita indicativa ou, se se preferir, amodal." 



Impresso por-em Cris Ebecken As 15:00:45
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Entre-Janelas 1

Os dedos de Lina alternavam entre a taça de vinho e as páginas do livro, enquanto a casa vazia e em silêncio respeitava sua escolha solitária naquela noite. Vez ou outra a cortina esvoaçava e desenhava sombra na página, o sino-dos-ventos tocava, apenas. O que realmente tirou os olhos de Lina em relâmpago da leitura foram gritos. Duas vozes, uma masculina e outra feminina, gritavam, com um choro de criança ao fundo feito trilha sonora mal gravada. Foi até a janela, nada. Cruzou o apartamento curiosa, deitou a orelha na parede dos vizinhos.

Do outro lado o timbre grave alarmava:

- Eu não aguento mais! Viu? Não aguento!

A resposta com pimenta de ironia:

- Ah, Não aguenta! Seu egoísta!

Continuavam entre gritos, o choro de criança permanecendo ao fundo, e Lina tateando a parede ouvia:

- Vou-me embora!

- Mas não vai mesmo, egoísta!

- Chega! Acabou! A-ca-bou!

A voz feminina agora mais baixa, enquanto barulho de passos percorriam até a proximidade da porta:

- Não acredito...

Lina correu ao olho mágico da porta. Barulho de chaves. Batida. A luz automática do corredor acendeu no momento em que um homem e sua sombra, a carregar uma mala, ia embora. O eco do barulho do elevador somou-se ao choro de criança ao fundo. Mais um vento fazia tocar o sino próximo à janela, chamando a atenção de Lina agora de volta para dentro. Em seu apartamento percebeu a calma habitante por ser só ela. Lembrou de intimidades próprias já secas no varal, relembrou como, feito uma menina levando a mão um catavento, já tanto levantara e acreditara na bandeira do construir junto ser um somar para o melhor. E ficou ali, entre o vinho e o silêncio, se perguntando: por que o ser humano tinge o céu de inferno? 



Impresso por-em Cris Ebecken As 20:11:48
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 Por mãos trêmulas fora deixada a carta pela fresta da caixa de correspondências. Havia pressa no gesto, que por engano confundiu números. Alheio e curioso olhar abriu o envelope de papel reciclado, e tantas vezes releu aquelas palavras na tentativa de imaginar a história. Falava assim o lido, sem poder revelar o impresso no entre-olhar do vivido:

Meu Menino,

De repente a gente virou coisa crescida. Ser gente grande às vezes envolve uma série de escolhas obtusas e esquisitas. Foi para me respeitar, ou me defender... sim, de você... que te atropelei, te tirei o risco de uma escolha pouco nobre, não quis correr o risco de te reconhecer acorrentado à covardias, fui corajosamente covarde pela primeira vez na vida. Certa ou errada? Feia ou bonita? Não sei. Tive medo de me desencontrar no seu olhar, enquanto tanto desejava me ver através dele.Te vi com medo, atropelei, nos adormeci. Traição não é palavra simples... naquele momento, sem querer, e buscando caminhar fora desse campo minado, traí. Nunca aprendi a deixar de ser desmedida...

Sua Menina.

 Intimidades não se revelam em linhas claras.



Impresso por-em Cris Ebecken As 19:43:11
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A Terra da Fertilidade

Certa Vez, o grande faraó ordenou a um navegante que visitasse o vale dos reis. A travessia era longa e, de início, tudo correu bem. Até que uma tempestade repentina afundou o navio rapidamente.

 O jovem foi levado pela ressaca até uma praia e, ao despertar, custou muito a mover-se, tamanho era seu cansaço e sofrimento. Finalmente, movido pela fome e pela sede, caminhou pelas areias em busca de alimento. Avistou então lindas árvores frutíferas e rios repletos de peixes. Enquanto desfrutava de sua refeição, o navegante alegrou-se com o canto dos pássaros e o perfume das flores. Grato por ter sobrevivido, acendeu uma fogueira e fez uma oração a Rê, o todo-poderoso. Nisso, um ruído estranho lhe chamou a atenção. O navegante virou-se e quase desmaiou ao ver-se diante de uma serpente imensa, que urrou:

 - Quem lhe ensinou o caminho para minha ilha?

O navegante ajoelhou-se e relatou todo seu infortúnio. Compadecido, o senhor das serpentes lhe disse:

- Agradeça a Rê por ter permitido sua chegada à terra da fertilidade. Aqui se encontram todos os maiores tesouros do mundo. Veja qual será seu destino: um navio surgirá no mar e o conduzirá de volta à sua família. No caminho, você reencontrará sua tripulação. Seus homens não morreram. Encontram-se perdidos em outra ilha mágica.

Profundamente agradecido, o navegante prometeu retribuir a bondadeda serpente enviando-lhe ouro e muitos tesouros. A serpente riu e lhe perguntou assim:

 - Você se esqueceu de que está na ilha da abundância? Por que eu precisaria de tesouros? Quero apenas que você transmita minhas palavras a todos os que se sentirem tão perdidos quanto você:

Quem acreditar no desespero viverá em eterno desterro.

(A Tábua de Esmeraldas: lendas e mitos dos antigos mestres alquimistas; Adp. Heloisa Prieto)



Impresso por-em Cris Ebecken As 09:38:26
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O tempo que a foto recorta e guarda, com seu enquadre rarefeito de memória, afinal desbota ou se recolore? Pára? Abre à mais fotos? Como deixar o tempo preso em um retângulo? Ângulo reto? Nada. Ler fotos é obsceno vasculhar lugares novos. Escrever fotos já são outros quinhentos... embora bem pornográfico.



Impresso por-em Cris Ebecken As 10:19:37
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Pandora ao Avesso

Em tempos de tristeza, a rendeira suspendeu seu pano rosa debruçando-se sobre papelões erguendo caixa. Dentro, desde o fundo até o topo, colocou retalhos das suas mais finas rendas. Com os dedos marcados pela costura, e todo o feito desmanchado nos olhos em água, com delicadeza de migalha, renda a renda, retalho a retalho, ali deixou e tampou a caixa. Rebordou o tempo sobre suas vestes. Primeiro se viu nua. Em seguida, com tinta, pintou-se nova sobre a própria pele. Certo dia, gostando do que descobria no espelho de seus poros, lembrou de uma linha na caixa guardada. Alongou-se um tanto duvidosa. Para que tocar em tudo aquilo? E a dor que sentira? Mas o querer mais forte fora que todos os receios, tanto mais buscava além dos desfeitos. A rendeira pegou a escada, da mais alta e escondida prateleira retirou a caixa, com os dedos refeitos, inteiros, cicatrizados, largou a dúvida e tirou a tampa. Encontrou no meio a linha, e a cada movimento que a puxava de dentro, delicadamente toda a renda se encaixava.



Impresso por-em Cris Ebecken As 18:27:16
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Na barca do tempo apenas quem rema sabe aonde busca desaguar ou aportar. O mar todo é o mesmo, embora desenhado com nomes diferentes, apesar das correntezas, há sempre tanto aonde se ir. João em uma beira d´água pedia à santa. Maria em outra beira esperava garrafa. Em algum ponto oceânico José dizia à Ana, vem comigo. Ana sorrindo respondia, gosto mesmo é de nadar. Em outro ponto desses um barco ia, enquanto outro chegava. Mas é em um encontro entre mar rio que o tempo reina brincando, fluindo, jorrando para todos os cantos, senhores, água permitam aguar.



Impresso por-em Cris Ebecken As 23:00:23
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De súbito, no meio do trânsito engarrafado, Luana teve a percepção. Depois a mesma, novamente repentina, surgira após horas na frente do computador. Mais outra vez, na volta do trabalho observando o céu escuro. E mais outra, na cama ao preparar o despertador do celular para o dia seguinte. Desde então a percepção tornara-se recorrente, embora jamais distraída, parecia sempre lhe ocorrer pontualmente. O que é viver com todas as letras a vida?, se perguntava Luana. Isso era o suficiente para fazer passar em silêncio um filminho em sua cabeça: o trabalho de agora, o trabalho outro desejado para o em breve, os homens passados por seus olhos e dedos, os amores desencantados, as amizades permanecidas e as desfeitas. Luana sem encontrar sossego compreensivo sequer, entendia parte da vida ser coberta por uma fumaça estranha que chamava ilusão, e a outra, após a descortina, como uma espécie de vácuo flutuante e uma fome diferente de busca. Essa fome chamava encontro. A percepção perguntosa que dera por lhe visitar, abria mais uma em seguida: estaria ela existindo feito um barco na areia de frente para o mar? Então seu lugar, de certo, seria outro.



Impresso por-em Cris Ebecken As 21:12:12
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