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DIA DESSES

NASCERÁ

UM SER LIVRE

DE UM VENTRE

L I V R E.

LIVRE?

LIVRE-SE.

A  R  R  I  S  Q  U  E

PELA VIDA.



Impresso por-em Cris Ebecken As 20:55:05
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Há tempos Júlia havia deixado de lado o ir à feira aos sábados, já há algum tempo também pouco cozinhava. Construíra ao seu redor uma vida de muradas práticas, qualquer espécie de ordem funcional cuidadosamente descuidada, aonde vivia bem. Mas aquela manhã despertou com gosto de comida feita com carinho, sabores frescos compartilhados, e flores na casa diversificando tons e aromas. Sem permitir que a preguiça a distanciasse, entre os goles do café trocou de roupa. Dois ou três quarteirões dali, sob um céu azul e passos dados cantarolando uma melodia por dentro, iniciou Júlia sua jornada entre os feirantes.

Logo na esquina, flores, de ambos os lados, flores. Entre seus botões pensados, como era do seu velho hábito, deixou para última parte. Seguiu feira a dentro. O senhor da barraca das hortaliças aonde ela sempre comprava, para seu espanto deu o grito entre os gritos:

- Ô moça sumida! Tem muita coisa boa aqui fresquinha!

Quase atropelada pelo vendedor de alho, se esgueirou por entre carrinhos e sacolas. De um lado a oferta era melancia, de outro uvas, morango, chuchu, banana, gengibre... Bem ali, numa ruela do bairro, a pulsação recém colhida de vida, o amarfanhado de pessoas carregando cada uma a sua história. Tanto mais andava, mais Júlia se sentia viva. Os olhos animados, de um lado a outro, degustando cada cor a sua volta. Alcançou a parte preferida: pescados. O forte e antigo senhor das dicas sobre escolhas e culinária aportado entre outros, o semblante de paz marítma, como antes, a fez começar a compra.

- Tem tempo hein, moça? Ah, mais vejo que tá ainda melhor de entendida! Bela escolha, vai fazer como? Te limpo da melhor forma.

Pegou a sacola, parou na barraca das ervas se alongando um tanto em memórias sobre o uso de uma a uma. Por dentro sentia um sorriso, selecionou pimentas. Assim foi pelo burburinho, percebendo cada fala, admirando o suor em cada gesto, escolhendo o que interessava, se perguntando, na verdade considerando uma besteira, o que a fizera afastar-se. O pensamento fixo na cabeça: nesse barco estamos todos dia-a-dia. Chegou, por fim, de volta ao começo. Rápido e certeiro o rapaz direcionou-se:

- Tá na hora de levar suas flores.



Impresso por-em Cris Ebecken As 10:21:51
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- Sabe de uma coisa que aprendi?

- O quê?

- Nem toda recordação boa é saudade,

nem toda saudade é boa de ser recordada.

- Bacana isso. Saudade é uma palavra misteriosa,

a gente nunca sabe se cabe no tempo.

- É, saudade pode ser perigosa...

- Posso fazer uma pergunta perigosa?

- Claro, pode! Agora tô curiosa...

- Eu virei recordação boa ou saudade?

- Você é vontade... 



Impresso por-em Cris Ebecken As 15:06:20
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Fac-e-rratas

O homem das múltiplas faces amanheceu com seus contornos na foto em branco estampada no jornal, de cara na capa. Escândalo das entrelinhas em denúncia, na porta das casas, nas bancas, a cada esquina de café matutino, era vulgarmente manuseado. Duas mulheres ao pé das notícias no varal do jornaleiro espiavam. Balbuciou uma:

- Vê que coisa... tinha cara de homem sério, gente certa, assim, boa...

- Sério? - se meteu a outra - Pra mim tinha cara de homem de dinheiro...

- E dinheiro lá é coisa que diga o que uma pessoa vale?

- E não diz? Dinheiro e bobo! Eu vejo! E paga cerveja! - gargalhou alto

- Tá doida? - retrucou com olhar de esquiva

Mas o dono da banca, respirando fundo, se meteu entre as duas:

- Ô Donas, olha eu tô aqui ouvindo, vê que não vale de nada a briga. Mas será que mulher não saca de homem? Vê bem esses traços dele?! Tá escrito na testa calado: gozador, homem de brincadeira!

- Então eu me enganei?

- Então dali não sairia nada?

- Ô Donas, eu não quero bancar esperto, mas tô no ramo faz uma vida. Em vez de ver só a manchete, podiam também ler a notícia...

Debruçaram-se, cada uma a seu modo, cerrando os olhos:

 DESVENDADO SERIAL KILLER: DE DIA PESCAVA E A NOITE VESTIA GRAVATA

 Dona de bar suspeito entrega à polícia endereço de serial killer. O homem abordava as vítimas depois de estudo de seus perfis. Durante o dia se fazia de pescador, escolhia trabalhosamente as iscas. Durante a noite se vestia de homem de negócios, pelo cheiro e pelos olhos escolhia a aposta . A denunciante justificou estar agindo em defesa própria. Temendo o rodeio do homem das múltiplas faces, após ter ouvido confissões alcóolicas, acredita ser das vítimas o mais elaborado alvo.



Impresso por-em Cris Ebecken As 20:42:05
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A amiga estremeceu a voz ao toque do telefone, fazendo Ana compreender nas lacunas das poucas palavras qualquer coisa de sofrimento em alarme. Sequer mediu ser madrugada, muito menos o quanto de gasolina da semana restante no carro, ou a necessidade de sono exigido para o dia seguinte. Pegou a bolsa e foi feito pé de vento. Fez ressoar a campainha uns quinze minutos depois. Do outro lado, abriu a porta um olhar vermelho, toda a face retorcida, e a amiga abraçou Ana num sobressalto feito criança.

Sentaram junto a uma garrafa de bebida já aberta entre almofadas na sala. Dor era brisa circundando tudo a volta. As palavras vomitavam decepção indigesta, havia um cortante de puxada de tapete em cada pausa para respiro no contar da história. Ana parecia saber em carne viva cada gota de acidez no estômago da amiga, foi até a geladeira pegar água. Era preciso limpar tudo aquilo, diluir o insolúvel, amparar as percepções de fins. Não era momento do recorrente: não chore; mas sim do: coloca pra fora; junto ao: aqui está seguro. Assim foi até o sol começar a raiar seu princípio de luzes, e a amiga com a fala esgotada soltar em mumúrio:

- Amigo fere assim?

Ana compartilhava do cansaço nos ossos. Olhou o ar da manhã frio deitando nas árvores do lado de fora. Água apareceu nos olhos observando o cuidado colorido nas plantas da amiga dentro da casa. Respondeu fazendo um carinho:

- Meu bem, algumas pessoas são feito cupins, devoram o que alimenta. Cupins vivem em colônia apenas. Amigo é coisa outra, podem mesmo serem poucos, mas preservam tudo semeado e florescido. Fica tranquila, é justo saber quem é o que num jardim.



Impresso por-em Cris Ebecken As 14:49:23
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Entre-Janelas 2

Amanheceu com o vento batucando janelas. Lina cerrou os olhos, espreguiçando estremecida com o barulho não habitual de um passarinho na vizinhança. Saiu da cama a contra-gosto com um anúncio de amargo gosto na boca. Estava acostumada com a liberdade do canto dos pássaros nas árvores, já conhecia seus horários, até brincava de assobios. Enquanto regava as plantas próximas a janela, espiou.

- Ah... mas eu sabia! Eu tava antes certa!

Do outro lado, cortinas abertas, vidros fechados. O vizinho dos discursos contra gaiolas e armadilhas, pregador da natureza livre, que ela desconfiara a primeira vista, estampava nada mais nada menos que gaiolas e armadilhas.

- Eu deveria confiar nas minhas primeiras impressões...

Debruçou-se um tanto mais a analisar o espaço interno do homem. Agora Lina se interrogava quanto ao momento em que se deixara persuadir. Sim, lembrava... quando ele estampava intensidade nas palavras e sua repetição a fizera descerrar os olhos, se achar desmedida na desconfiança. Retornou para dentro, caprichou açúcar no café.

- Por que vira e mexe se faz ver o que não é?



Impresso por-em Cris Ebecken As 10:14:31
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- Queria te contar um segredo...

- Conta!

- Não há segredo.

- Como?

- Você desata meu medo.



Impresso por-em Cris Ebecken As 10:37:01
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Circular ângulos é refrescar os olhos das possibilidades.



Impresso por-em Cris Ebecken As 14:22:09
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Era um jovem escultor de raízes. Desde pequeno lhe incumbiram do ofício: dia a dia olhos no chão, a talhar com suor as madeiras antigas submergidas da terra. Jamais extraiu uma sequer, se mantinha fiel ao seu artesanato, esculpindo agachado a base sedenta das árvores, solitário repintor do passado. Chovesse ou ensolarasse, sua identidade era aquilo que fazia. Silencioso jamais se indagou sobre brotos e sementes, o barulho do vento nas folhas nada lhe dizia. No máximo do desvio de um olhar ficava um estranho e profundo respeito pelas operárias, sempre que uma trilha de formigas cruzava seu campo seco de trabalho, delicados eram os dedos que as retiravam uma a uma reconduzindo-as à terra. Mas foi em um cair do sol após longa queimadura nas costas, que arteiramente um sabiá desceu suas asas pousando na raiz em que suas mãos talhavam. Ficaram ambos ali se entreolhando, o jovem perplexo sem movimento, o pássaro entre cantos a espiá-lo. Nada sabiam um do outro, nada poderiam esperar de previsível. Um, sempre preso aos sulcos do chão; o outro, sempre desatado na amplidão do céu. Então, feito uma criança arriscando o conhecido no desconhecido, o escultor estendeu delicadamente o dedo trêmulo. O sabiá subiu. Lentamente o escultor com o sabiá no dedo foi levantando-se do chão, os ossos estalando, os olhos grudados à leveza das penas. E um vôo, longo, alto, amarelo, seguido pelo olhar do jovem, o fez pela primeira vez admirar o artesanato do horizonte.



Impresso por-em Cris Ebecken As 10:09:43
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 Acordou cedo, antes das buzinas matutinas, o galo urbano dos seus dias, começarem a aquecer no crescer do sol. Passou café, regou plantas, acendeu incenso. Já ia para o banho, mas no meio do caminho um pensamento: para quê rotina aonde não carece rotina? Olhou a volta, mirou o relógio. Percebeu ter esquecido virar o mês na folhinha, ajeitou o tempo. Foi no susto mesmo que balbuciou: meu deus, já é primavera?! E bem no meio do que a princípio tudo se chamaria rotina, minuciosamente constatou tudo estar diferente. Com o coração aos pulos se alongou no questionamento: quem fez isso fui eu, ou terá sido o tempo?



Impresso por-em Cris Ebecken As 20:01:04
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- A noite me acalma... gosto de olhar as luzes.

- A noite me intriga, me sinto só.

- Sempre fui só, dever ser por isso que gosto de tantas luzes.

- E você nunca pensou em quantas luzes há tanta gente só?

- Assim você apaga minhas luzes...

- Assim acalmo minha noite.



Impresso por-em Cris Ebecken As 22:04:30
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