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RE-TINO-RE-FLEXOS

Era assim mesmo aquela moça, nada lhe escapava aos olhos. Claro ou escuro. Dia ou noite. No palpável ou na ficção. Havia nascido dessa forma e já não havia mais jeito. Genética de olhar vasculhador. Leitora sem limites de gênero, composição, forma, do mundo. Seu alimento estava na vida em si, no que encontrava de beber na existência. Não importava a circunstância... na fila do banco, na padaria, no burburinho abafado do metrô, no sacode engarrafado do ônibus, nas poucas vestes litorâneas, em olhares silenciosos, em palavras displicentes, nos meros gestos... lia e se abastecia, pareava fragmentos de gente. Como quem escreve um dicionário, esse era seu meio de erguer uma torre em labirinto, e, em tantas voltas, poupar-se do sentimento de extraterrena. Mas veio o dia em que, distraída e atraída em seu movimento, outros olhos ergueram-se a sua frente. Trama longínqua do tempo. O reflexo. A nudez das paredes. Assim como no invisível palpava os sentidos, no visível fora tocada, sentida, bebida. No ser em si e no mútuo, sem pudor ou medo. No espelho e no permitir-se aceitar o convite da mão estendida ao mergulho no espelho. Jamais tornaria à mesma. Permaneceria voraz em suas leituras, embora com todos os significados realocados, uma torre transformada em ilha, um labirinto dissolvido em mar.



Impresso por-em Cris Ebecken As 17:15:05
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- Tá chegando o dia...

- Tá com medo?

- Não sei se o nome é medo.

- Ó, medo é aquela coisa que dá vontade de sair correndo

ou aquela coisa que dá a sensação de que vai engolir...

- É, a palavra não é medo,

quero que chegue logo... mas dá calafrio.

- Será que é vontade? Daquelas iguais a primeiro beijo?

- E dá pra gente se dar beijo assim?

- Você faz sempre graça! Acho que uma escolha

de caminho pode sim ser como um beijo...

- Mistério do gosto que vou descobrir...

- Imagina! Descobrir as texturas da própria saliva!

- E voar feito borboleta com borboletas na barriga!

- Posso te ver com esse gosto por altura

prestes a se arriscar em experimentar abrir os braços...

- Eu sou um perigo quando invento de querer...

- Você tem a coragem que precisa.

- Mas só o tempo sabe da maré e dos ventos.

- Você sabe que o seu caminho está guardado.

- É, preciso fazer minha parte,

me experimentar o mergulho...

- Você não tem jeito, nasceu e vai morrer assim...

sempre com esse amor a frente nas buscas,

sempre faminta no que te identifica.

- Ai, arrepio na espinha!

- Não faz charme! Esse é o seu combustível!

- Tá bom... mas diz que a sua mão vai estar

sempre estendida pra mim...



Impresso por-em Cris Ebecken As 14:53:51
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ACHADOS E PERDIDOS

Entre algum lanche e capuccino, naquela pequena cidade de ruas de pedra e declamadores de poesia circulantes, sentaram as duas amigas bordando fios de prosa quando a noite já cobria. As falas eram tantas, entre elas, percurso de buscas de sentidos, fragmentos de histórias, tentativas de lanternas sobre os caminhos. Pela janela sopravam ventos de anúncios de mudança, presságios em sentimentos, turbulências do zum zum zum a volta. Talvez mesmo para acompanhar o universo particular de cada uma delas, assim, sem mais nem menos, de repente, todas as luzes da cidade se apagaram. A água já era excassa, faltante em vários pontos, e agora, a claridade se fazia ausente. Sairam pela rua movimentada, pouco o que saber do rumo, muito menos a compreender dos tempos. Mas com o humor que alimenta os que têm fome, ainda brincaram: "o momento em que perdemos a luz".

 Ia uma pensando entre botões, pedindo a si mesma que encontrasse lá no fundo o caminho a seguir em sua vida, quando a outra puxou-lhe o braço. "Olha! Uma Igreja! Não sou disso, mas dizem que quando se acha uma que ainda não tenha conhecido, pode entrar e fazer três pedidos. Vem comigo?" Foi com a amiga. Era horário de missa e todo o interior estava iluminado por velas, o padre rezava, os fiéis acompanhavam, e muito pouco, quase nada, as duas compactuavam com aquilo. Uma pôs-se ao lado observando e a espera. Outra caminhou ao centro, fechou os olhos. Quando uma dirigiu os olhos à pequena mesa a sua frente, e a outra alcançou o tempo de seu terceiro pedido, feito cena única às ficções, acenderam as luzes de toda a cidade. Sobre a mesa, debaixo do olhar de uma, um papel. Ao centro, com o abrir dos olhos de outra, o brilho procurando os da amiga dizendo: "Meu pedido..."

Meses passados, o papel guardado fora relido. Junto a memória da lua no céu, o balançar das chamas das velas, a sensação de vida compartilhada, o cheiro de museu da igreja. Inevitavelmente uma recapitulação das escolhas e passos dados, e, extremecedoramente, entre olhos molhados sobre a frase grifada no papel, o pensamento: "Hoje, justo hoje, cumpro isso aqui...". Pensou na amiga, exatamente naquela noite em que mais uma vez o relia, havia lhe contado ter achado a saída. Lembrou as outras buscas associadas às tristezas do anoitecer da falta de luz, todas dissolvidas e clareadas. Fechou os olhos, se disse: "Tá, eu acredito e não acredito, mas acredito. Leva luz para os três pedidos da minha amiga, caso ela ainda não tenha encontrado. Se já estiver tudo bem, não sei bem a quem agradecer, mas muito obrigada."

Se fé move montanhas, melhor fica de mãos dadas.



Impresso por-em Cris Ebecken As 05:22:10
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"Benditas coisas que eu não sei

Os lugares aonde não fui

Os gostos que não provei

Meus verdes ainda não maduros

Os espaços que ainda procuro"

(Zélia Duncan)

 No centro dos rodopios ele movimenta a abertura de uma janela, enquanto ela se debruça ao convite. Como histórias dessas não tangíveis por explicações corriqueiras, um ímã dissolve fronteiras chamando por ela e ele. Ele tece à ela um sol amanhecido sobre a sabedoria dos encontros. Palavras são pintadas bordando fé sobre as possibilidades. Ela espia pelas frestas da manhã na curiosidade de descobrir aonde vão repousar aquelas linhas de luz. Toca carinhosamente cada palavra dele que lhe chega, tenta palpá-lo em cada textura de letra. Ele lhe abre linhas em espaço antes não navegado, e assim lhe abre os significados, aguça o olhar à beleza do universo. Poderiam, facilmente, se dizerem velhos conhecidos... mas é apenas o começo do novo, os caminhos não são conhecidos; simplesmente ele e ela, desbravando a caligrafia dos sentidos.



Impresso por-em Cris Ebecken As 20:08:33
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"LA LLUVIA ÁCIDA AMENAZA AL BUDA MÁS ALTO DEL MUNDO"

Lá estão as linhas espanholas discorrendo essa semana, no caderno de cultura do Al País, acerca dos desgastes do tempo, da maré de turistas, dos micróbios, do descaso humano ao cuidado da história, e da chuva ácida. O Buda de Leshan, o mais alto do mundo, se encontra inclusive sob o risco de perda de uma orelha. Enquanto os olhos traduzem palavras, inevitável o temporal de sentidos ardidos: as águas, em geral, estão colocando país a país, cultura a cultura, homem a homem, na cadeira do pensamento. O tempo, erosivo senhor dos julgamentos, puxa um a um as orelhas. Um planeta inteiro vem construindo economias e deseconomias históricas feito micróbios, a acidez pairando tudo a volta...quem nota? Nota? Nota é disputa da cifra mais alta.



Impresso por-em Cris Ebecken As 16:12:49
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SIMPLES DIVINO

Quem é, seu zé?

Quem é quêle vindo no barco

lá na tempestade, seu zé?

 

Deve de ser Deus, meu fio...

Quem ainda rema contra a maré?

Êta marinheiro danado, menino!



Impresso por-em Cris Ebecken As 22:21:16
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 Roda a saia a menina. Gira, bate palma, marca com o pé. O sorriso dança no mesmo rodopio, os olhos correm a roda, tempo de ser apenas criança. Lá fora já é uma outra história, tantas diferenças separam as escadas que levam ao asfalto. As batidas dão o tempo do canto, enquanto as buzinas alarmam os contra-tempos. Não há mistério nisso, nem mitos escondendo origens. A cidade das muitas cidades é assim: contraste. O irmão mais velho malabariza bolinhas no sinal em meio a pluriretinas. Do pai não se sabe. A mãe é equilibrista de jornadas. A menina ao nascer sequer desconfiava dos precipícios urbanos. Chorou, respirou, e em algum tempo abriu os olhos como qualquer outra criança. Deu alguma sorte, por agora é guardada por uma arte, incrivelmente humana.



Impresso por-em Cris Ebecken As 20:29:14
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COM SABÃO DE TUDO UM TANTO

O calor escorria corpo por fora,

a boca secava tudo por dentro.

Ana bufou um tanto entre cabelos e relógio

depois pegou água e bacia,

mais a pilha de roupa de suor, passeio e íntima.

Sem perdão era sabão em punhos e desmedidas.

- Pra aquele que acha que manda? Desmancho!

- Pra aquela que trai feito novela? Desfaço!

- O prefeito? Afogo!

- O engarrafamento todo dia? Dissolvo!

- O atraso no pagamento? Torço!

- O Brasil?

Pausou respirando sobre a água cinza.

- Esse não dá só com uma bacia... 



Impresso por-em Cris Ebecken As 18:44:35
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O olhar era a tudo da mais funda sedução. A Moça Caçadora de Palavras tinha por gosto revirar o mundo na fome de sentidos. Grandezas lhe eram insaciáveis. Mais vivia, mais farejava. E, se em algum momento alguém tentava retê-la entre os dedos, era por isso que escapava. Sua satisfação estava no simples. No simples respirava tranquila e se aninhava. Seduzir não lhe era um meio ou missão, apenas qualquer coisa intrínseca a natureza. Caçadora, sim. Mas a finalidade jamais fora a morte; a sede de vida era sua palavra juramentada.



Impresso por-em Cris Ebecken As 10:28:13
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