
DE-TUDO-UM-POUCO ANÔNIMOS
Dentre todos os vícios, na superfície se fica perceber apenas os estigmatizados. Dependências, compulsões, substâncias. Fácil cercar a grama do vizinho que não é tão verde. Mas, com alguma humildade, ou mesmo honestidade para com o espelho, viciado quem não é?
César acorda todas as manhãs amargando o dia que se seguirá na empresa, reclama toda noite antes de dormir, jamais encaminhou um currículo sequer, as poucas ofertas que lhe apareceram sempre considerou um risco. Ana há 35 anos deseja morrer, a cada década de vida acredita não chegar até a seguinte, há 45 anos se diz doente, há 65 anos considera ingrato quem não lhe dá carinho. Pedro olha ao seu redor como um tabuleiro de xadrez, toda vez que alguém lhe escapa ao controle abre seu dicionário de palavras agressivas, considera uma ausência de Deus acabar recorrentemente sozinho. Joana foi traída uma vez, todos os seus relacionamentos depois tendem ao naufrágio logo no início, identifica indícios de traição a cada gesto do outro, julga ter algo escondido em cada declaração amorosa ouvida.
João perdeu a mãe jovem para um câncer, há 10 anos entoa mantras três vezes ao dia, não fuma, não bebe, repete sempre ser saúde o resultado de pensamento positivo, mas a todo instante vasculha seu corpo achando pressentir sinais esquisitos. Luíza toda semana repete ao seu terapêuta: vou ficar para a titia, não sei qual o meu problema, todo final de semana fico com algum gatinho, me arrumo bem, vou nas melhores boates, mas no dia seguinte ninguém me liga. Arthur e Rachel são casados há 20 anos, um casal de filhos, camas separadas, diálogo é grito, ele diz ainda estar com ela por ser muito velho para conseguir outra parceira, embora toda semana suma por dois dias, enquanto ela diz ainda estar com ele para não tirar a qualidade de vida dos filhos, e recusa-se a voltar a trabalhar, já que parou para criá-los.
Leandro, Carolina, Renato, Silvia, Alan, Rosa, Ricardo, Carla, Josefa, Joaquim, fulano e ciclano...
Eu me engano, tu te enganas, eles se enganam. Armadilhas. Vícios de comportamento, cárceres de pensamento, arames farpados em looping da afetividade. E agora? Qual o seu vício? Quando se liberta?
Impresso por-em Cris Ebecken As 08:13:20
[ ]
|

Uma gata espicha-se na cesta de revistas. Acima o ritmo ventiloso do ventilador a mesclar-se com o silêncio. Primeiro de janeiro e a cidade maravilhosa ferve em seu clima domingueiro em dia de semana. O calor extrai água da pele. Litros d´água são levados à dentro na tentativa de recompor todos os ritos esbaldados ao mar na noite trigésima primeira. Algo se processa naturalmente.
Um assalto na Rua Treze de Maio nos últimos dias de um dezembro me levara os documentos, deixando ao ano que principia a renovação das identidades. Verdades foram ditas ao pé do ouvido, um dia seguinte, deixando ao seguinte a libertação dos cárceres da subjetividade. Carinhos foram escritos movendo a importância de haver receptividade à novas e velhas memórias, bons lugares hão de ser achados. A outra gata enrola-se ao pé. O pé machucado pede paz à mobilidade. Primeiro de janeiro e o mar da cidade amanhece coberto de flores. A água deita calor na pele. Longo banho demorado lavando as impressões dos sentidos.
Algumas pessoas marcam data para ter fé, mas sabe-se lá como o tempo realmente gostaria de ser contado e esperado. Um amigo divide um pão, em pleno início de fim de trigésimo primeiro do décimo segundo, a lembrar que determinadas coisas deveriam ser para todo o tempo da vida. A cidade maravilhosa deveria mesmo chamar-se Gema das Águas, toda fé nela converge ao mar. Se o ano iniciado traz a frente as roupas de Jorge, amor pode ser a arma; que dure sem ser duro. Brain Storm inevitável. Banho de cachoeira dos sentidos, água doce tem uma mística semelhante as viradas. Crer é preciso a todo instante, não apenas uma vez ao ano. E que vício esquisito esse de contar os passos de 365 em 365, mais ainda supor a existência retilínea.
Peço desculpas aos meus próprios hábitos, hoje preciso escrever em tudo e em tudo usar a primeira pessoa. Jamais acreditei em sapos nem príncipes, nem trinta e uns e primeiros. Mas o ano acordou com molezas e metáforas de digníssimo realismo mágico. A cidade que não é só maravilhosa que me perdoe, mas hoje me inventei de autos dela, não vou escrever sobre as complicações das pessoas, essa entidade primeira pessoa fez reveillon, desato-me. O despreendimento convida me puxando pelos cabelos. Ainda gastam por aí os resquícios de fogos da virada, uns e outros interpelam o silêncio. Caio trôpega nos ares cervantescos da personalidade. Na máxima do ser comum, provavelmente é aonde menos serei entendida, mas por agora só importa essa enxurrada de sentidos. Adeus ano velho, feliz ano novo. Cantarolo. Tudo novo de novo. Autenticidade às vezes é crer sem nenhuma autencidade. Quixotesca sim, e daí? São Jorge cortará com sua espada todos os Sanchos Pança que ousarem reduzir água à lama. O ano nasceu, acordou criança fervorosa.
Impresso por-em Cris Ebecken As 18:17:54
[ ]
|