Extraídas Impressões Impressas

 


"Sinal particular: a análise ponderada do futuro de suas células e do poço escuro do passado."

(Marcos Siscar; O Roubo do Silêncio)

CARTASEMPARTO

Acumulavam-se sequencialmente aos montes as correspondências. Quase nada, mero acaso, abertas. Os olhos de Reno preguiçosamente observavam chegar uma a uma; e em silêncio fitavam sem qualquer estímulo ou movimento. Uma ausência de espera. Uma espera de ausências. Todas ali, superpostas como chegavam, pareciam-lhe, na medida em que preenchiam o espaço, alargar o vazio. O que gostaria, sabia, não teria: carta de filho.

Toda vez que ouvia o barulho da criança através da parede vizinha, respirava com o olhar sobre as correspondências. Era seu momento de esperança; que rapidamente transpunha-se a sonho; e rapidamente diluía-se. Por vezes Reno chegara a rabiscar palavras, linhas de cuidados entre olhos molhados. Por tantas outras vezes pensou em violão e livros no testamento, era o que tinha. Mas segundos de realidade lhe bastavam, se repetia sem porta-retratos: não tenho filhos.

Foi um envelope colorido com aspecto de papel reciclado que o roubara do transe cotidiano. Provocando a memória a forma das letras, reteve entre os dedos, parecia ter-lhe cheiro. No remetente, por surpresa, uma velha namorada. Dentro: se ainda for esse o endereço, era preciso te dizer: sua existência no meu caminho, mesmo depois de ausente, continuou me irrigando de pequenas coragens, me gestando sonhos, obrigada.



Impresso por-em Cris Ebecken As 15:07:34
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REALITIES RETALHOS - SPLEEN

Sexta-feira de lua cheia no fervilhão do Rio de Janeiro. Britadeiras, buzinas, zum-zum-zuns, aceleraram o dia inteiro a espera da pausa do final do dia. Por volta das nove horas da noite, sol já deitado, alguns ainda encerram seus trabalhos, muitos tomam banho respirando a brecha do alívio, uns ligam a tv, outros combinam a saída noturna, e mais algumas outras poucas e diversas realidades.

Entre prédios, uma vila com vestígios de casas ecoa barulho de criança brincando solta, gargalhadas que invadem as janelas dos vizinhos. Em alguma delas, bem provável, alguém as ouvindo sonha com um outro cotidiano, cria nostalgias de uma fantasia antiga não desbotada, um viver em uma cidade não tão urbana, aonde criança e passarinho representem sonoridade de paz e liberdade. Em alguma outra janela, também bem provável, alguém bebe sozinho uma taça de vinho, ou uma lata de cerveja, ou mesmo uma dose de cachaça, recordando a fantasia desfeita, por já ter vivido em cidades não tão urbanas, e saber que criança e passarinho, hoje em dia, de acordo com o social e a cultura, têm sempre motivos para serem engaiolados.

Baudelaire, em Pequenos Poemas em Prosa, retalhando uma modernidade parisiense, que em muito se encaixa indiscriminadamente as mais diversas regiões do Ocidente, pinça esse humano nosso de todos os dias, as particularidades unanimimente peculiares de Cada qual com sua Quimera. Em alguma outra janela, tendo de fundo o som infantil e a lua, alguém, bem provável esse quem que uma prosa por necessidade escreve, revesa as páginas de Baudelaire com imagens de um reality show polemicamente famoso. Pensa: qualquer um caberia tanto aqui quanto ali, quanta pluralidade já sem grandes supresas é o provável legado daquelas crianças de lá. Talvez por isso, nesse arroz com feijão prosaicamente digerido no cotidiano, seja preciso na minúcia encontrar poesia.

Sexta-feira de lua cheia em uma cidade de qualquer canto. Uma moça revira pensamentos entre livros e vivências. Por sobrevivência se pausa das análises do dia-a-dia. Toma um longo banho desligando as exigências sobre as tomadas de caminho. Procura por uma ou outra amizade. Se promete só checar a conta bancária na segunda-feira. Deixa a televisão sem som ligada e o computador no repeat de uma mesma mp3. Escreve poesia entre fumaças de incenso. Fecha os olhos, sente da brisa que entra um carinho.

"Interroguei um desses homens, e perguntei-lhe aonde iam assim. Respondeu-me que de nada sabia, nem ele, nem os outros, mas que evidentemente iam a algum lugar, já que eram levados por uma invencível necessidade de andar."

(Baudelaire; Pequenos Poemas em Prosa [O Spleen de Paris])



Impresso por-em Cris Ebecken As 20:29:33
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 FRONTEIRAS

Quem nunca quis a confluência das trocas

que desgarre-se do fluido da vida.

Essa entidade a todo ser forte

é das ousadias a fantasia sozinha.

Se cada um leva em si seu prumo, seu norte,

nada desdiz o cultivo do olhos nos olhos,

o sorrir pelo conforto do abraço das margens,

o saber-se amado mesmo sendo para o mundo um micrúsculo peixinho. 

Lacan revire-se ou sambe em luminosidades apagadas,

o Outro, simplesmente é o Outro, sem necessidades

do peso que assemelha os faltantes,

o Eu nasceu ao encontro

pelo reforçamento da leveza.

O Eu e o Outro, contigências das pontes,

dar a mão para atirar-se no rio, carinho.



Impresso por-em Cris Ebecken As 10:28:47
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Entre-Janelas 4

 Aonde larguei minhas tintas? Vasculhavam as mãos de Lina com o pensamento entre os dentes. Desde a mudança, objetos encaixotados, roupas em malas, livros ensacolados, tudo ainda na suspensão do tempo de encaixar em novos lugares, que ela passava horas de caos organizado na preguiça animada de sonhar o que faria. Naquela tarde de sol sem brisa, admirando a simplicidade do varal do vizinho, um golpe de vontade de intimidade a desorganizava em movimento.

Convido para um vinho? Bato à porta, peço um pouco de açúcar? Espero aqui na janela, quando ele aparecer aceno com um sorriso? Ia Lina de parede à parede com seus goles de café. Quero um cúmplice, cansei de viver em desafios, hora de preparar a casa, e a cama, e minhas velas coloridas, mais as rendas; dessa vez, só com doçura, venho enjoando de pimenta. Ela sabia, não se assumia, mas sabia, o que a atraía no rapaz do outro lado, era seu costume de se espichar noturnamente na varanda, com trilha sonora apetitosa e os olhos no céu feito passarinho. Algo naquilo a fazia escrever linhas e linhas sobre cumplicidade, a arrancava dos livros com um magnetismo estranho, e tanto mais medo e ausência do que fazer sentia, mais se descobria outra, mais se identificava.

 Resolveu começar pelas tintas. Ela, tão cheia de pigmentos, não conseguia dar-se início na branquidão envelhecida, e o querer, que estava desbotado, feito combustão lhe chegava naquela tarde. Ai, será que o dinheiro vai dar para comprar novas cores? Será que eu vou viver sempre nesse looping de transformações sozinha? Revirava-se Lina respirando ao céu sem núvem, quando ele apareceu do outro lado também levando a mão uma caneca. Pincéis! Ele tem cara de homem que tem pincéis!



Impresso por-em Cris Ebecken As 11:30:35
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- Gosto de ver a graça da chuva colorida dos confetes.

- Nem te falo... gosto tanto. Mas não compro há anos um saco.

- Tão da folia você... por que não compra?

- Me dá expectativa. E sentindo isso, aumenta a minha vontade de viver cada segundo.

- E isso é ruim? Viva!

- Cada carnaval é um, e a gente nunca sabe como vai poder senti-lo.

- "Mas é carnaval", toma, divido contigo meu saco.

- Ah, obrigada! "Deixa a festa acabar, deixa o barco correr, deixa o dia raiar"



Impresso por-em Cris Ebecken As 11:02:12
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