
GEMADA ANATÔMICA
Rio de Janeiro. Metrô de Botafogo. Uma fila para comprar a passagem percorre todo o subterrâneo até o pé da escada que sobe para a rua. Alguém por distrativo saca da bolsa uma revista de palavras-cruzadas. Pessoas enfileiradas. Palavras pescadas na tentativa de um viver mais adaptado, menos incomodável. A fila comodamente se espicha e segue na lentidão que dia para ninguém tem. Um homem algemado desce sendo puxado escada abaixo por um guarda. O homem chora em altura larga. O guarda o empurra a força larga para dentro da cabine envidraçada. A fila, já como fila, parada, pára e olha. Mais pessoas descem as escadas, umas vão para a fila, umas passam seus cartões-passagens-pré-pagos pela roleta e mais abaixo se aglutinam, algumas vão direto à frente da cabine. A cabine envidraçada não isola o barulho, as pessoas a sua volta isolam da visão o que ali dentro se passa. Uma mulher, jovem, dessas restantes sobreviventes que ainda questionam ou se indignam, grita da borda do isolante de gente que só olha: "mas ele fez alguma coisa de verdade? não foi o guarda lá em cima que esbarrou nele?". O alguém das palavras-cruzadas, livre da fila, não se livra do incômodo que agride os olhos e não entendem os ouvidos. Como preencher a incógnita do que se passa a volta? No atordoamento temeroso diário, desce mais escadas.
Embaixo, na plataforma com linha rente amarela, a multidão de pessoas aglutinadas mantém seus pescoços espichados à cabine. Chega o trem sobre o trilho estalante. Os vagões abrem suas portas. Empurra empurra cruzado. Aglutinado de agressões e pressa, mãos buscam se algemar à algo que mantenha em pé. O alguém das palavras-cruzadas, pelo atordoamento da retina, não percebeu estar no horário de vagões exclusivos para mulheres. O alguém das palavras-cruzadas é do gênero feminino, e inadaptavelmente se descobre em um aglutinado isolante do gênero masculino. Um apito, tarde ou cedo demais, as portas fecham. A alguém é olhada por todos os olhos, inevitavelmente pensa: puta merda. Um rapaz movimenta em aproximação, passa o braço com olhos preocupados: com licença. Pára a sua volta isolando corpos. Os olhos da alguém seguram a força um risco de água, mas nada segura o pensamento: pelo amor de deus, que pelo menos essa vez na vida eu tenha alguém que me proteja. O trem pára na estação seguinte, portas inalcançáveis abrem, empura empurra, corpos se amassam. Mais uma vez. Mais uma vez. E outra e outra. A alguém projeta os olhos para a porta enquanto o movimento percorre o túnel, um homem movimenta o corpo em projeção à ela, o rapaz projeta o olhar a ele em movimeto isolante. O rapaz com o corpo abre uma saída à ela para a porta. O trem pára. O vagão abre as portas, ela salta no meio de seu trajeto, com os olhos já de fora projeta o olhar ao rapaz no meio do aglutinado de dentro: obrigada.
Na plataforma de uma estação qualquer a alguém caminha para a sinalização das portas do vagão feminino. Um outro trem pára. Empurra empurra cruzado. Agressões fisicamente mais declaradas, braçadas femininas se dão cotoveladas. A alguém segura com força. A mão esbarra na mão de uma senhora. A alguém ajeita os dedos com olhar de com licença. A senhora sorri, abre a boca: não dá para acreditar no que está acontecendo com as mulheres. A alguém conta da jornada na fila, do homem algemado, do guarda, dos aglutinados e isolantes, do percurso no vagão não exclusivo, e já cansada de tentar algo menos incomodável, suposto mais adaptável, confessa à senhora: está tudo assim, sem pé nem cabeça. A senhora, com os olhos de uma esperança sobrevivente projeta palavras: se você estivesse grávida te isolava aqui com o meu corpo, eu acredito que vai mudar, os jovens são a solução, eles vão fazer melhor do que fizemos. A imagem do rapaz do vagão passado se projeta na cabeça da alguém, mas em lapsos falas e falas de jovens com quem cruzara recortam os vagões de sua memória em movimento. "Que morra quem tiver que morrer". "Não tem dengue no meu bairro, pra quê tenho que ouvir o jornal falando dos pratos das plantas?". "Não me sinto brasileiro". "Velhos são muito chatos, acham que podem tudo, só dou meu lugar se quiser." A senhora, em alguma outra estação projeta seu corpo no empurra empurra para a porta, volta o olhar carinhosamente, antes de movimentar-se para fora diz: acredite.
O alguém das palavras-cruzadas no empurra empurra segue seu destino à ultima estação. Pelo subterrâneo sua retina tenta pescar a força alguma algema de compreensão. Não há como preencher inteligivelmente a vida-cruzadas.
Impresso por-em Cris Ebecken As 11:09:06
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DAS PRESENÇAS
Estava perto, muito perto, de receber seu presente. A pluralidade da palavra presente tentava-lhe o pensamento. Presente como tempo atuante. Presente como presença. Presente como objeto ofertado. Receber seu presente significava-lhe ao mesmo tempo todas as possibilidades, e estava muito perto. Sabia: não eram objetos em si que lhe importavam, mas a presença que entregavam no tempo presente, e no tempo do presentear o que valia eram os significados contidos. Enfiou os dedos no livro de Sylvia Plath como quem sorteia uma poesia, e lá estavam Tulipas, vermelhas, incômodas à dona daquelas linhas, incômodas na leitura como incômodas; mas um presente aos sentidos. Era diferente daquilo, queria presença, mas não qualquer presença, tinha o hábito de associar afetos à flores, e tê-las a volta era por certo renovação do valor do tempo presente. Fechou Ariel com cansaço repetivo, era preciso outro livro para sortear-se poesias; em pleno outono seu tempo não era mais das mortes e dos versos sozinhos, o presente era presentemente presente, e estava perto, muito perto. Se daria um livro de jardinagem, colorido, delicada e intensamente colorido.
Impresso por-em Cris Ebecken As 10:53:00
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ZZZ
Cresce o número de mortos nas reportagens sobre a epidemia. Mas a epidemia é só uma? Ou mais uma? Ou a uma não silenciada? Quanto de sofrimento-barulho é preciso para calar o silêncio das vendas? Será que só percebe o zumbido de um mosquito quem é picado? No prefácio de um livro, escreveu um autor que na época da Segunda Guerra, estava com idade o suficiente para registrá-la na memória, e a dimensão do episódio fez com que acreditasse que a partir dali desenvolveria-se uma nova forma de relacionamento humano, traduções a parte, relações de fato humanas. Aonde foi mesmo que ficou esquecido o velho provérbio, antes prevenir do que remediar? Metáfora e realidade coçam. Zumbido, epidemia, número de mortos... cada geografia com sua guerra. Plural ou singular? Ecoa, eco-à-logia: até quando?
Impresso por-em Cris Ebecken As 23:49:14
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